Panelas para o Dia das Mães

Advertência: as mães de que falo no texto são aquelas por volta dos 50 anos ou mais, da geração pré-chapinha, pré-suco detox, pré-meu-Foucault-diz-que-você-é-misógino-porque-abriu-a-porta-do-carro-pra-mim-e-isso-é-uma-micro-agressão. Mais jovens, não conheço. E nem sei se existem.

A massa aceita inadvertidamente ou crê de maneira convicta em um conjunto de idéias provenientes de uma mesma origem sem nunca ter parado por um só instante para pensar nelas. Eis em que consiste a hegemonia cultural, que comodamente açambarca o imaginário, influencia o entendimento e determina o comportamento daqueles povos submetidos a um ente de razão postiço e nos quais a observação atenta da realidade, seguida da reflexão (às vezes também do estudo sério) sobre a mesma, e o exame profundo de consciência são vistos com menoscabo.

Dessa forma, é de um sem-número de heranças irrefletidas – legadas pela mídia, a escola, a universidade, a “arte popular”, a intelligentsia – que se compõe a cosmovisão do homem comum na modernidade (ou o homem-massa, de Gasset), sendo este incapaz de se perguntar: “Isso é mesmo assim? Não haverá outro jeito de pensar?”.

Tomo aqui um exemplo banal. Aproxima-se o Dia das Mães. Como sempre, filhos devotados e pais de crianças menores irão às lojas em busca de um presente para a rainha do lar. À empreitada da procura e da escolha – via de regra, infausta – o mau senso hegemônico adiciona uma importante restrição: está proibido sequer cogitar utensílios de cozinha. Terminantemente.

A justificativa, todos conhecemos: tais apetrechos reforçariam a condição submissa da mulher – não rainha, senão escrava do lar – ante seu marido-senhor, sintetizada na máxima: “lugar de mulher é na cozinha”, corolário de uma sociedade machista, sexista, patriarcal e toda aquela parlenda sonífera e simplista reproduzida em versão edulcorada e com sorrisos branquíssimos nos programas de TV, e no modo procto-hepático mais bronco por parte de feministas, estudantes de Humanas, subintelectuais acadêmicos e outros livre-pensadores.

Assim, reduzido sensivelmente o escopo de possibilidades – a cozinha é um mundo –, resta ao miserando homenageante, sob pena de ser previsível, a escolha entre as clássicas opções de perfume, roupa, livro. Quem sabe um DVD ou Blu-Ray (ainda se usam?). E além do risco de se repetir, há aquela infinidade de fatores restritivos com que todo comprador de presente penosamente se depara nessas datas: o preço, o gosto da destinatária, o tamanho, o corte, a cor, ela vai ler o livro?, DVD… hum… duas horas de filme e depois um acumulador de poeira pelo resto da vida, e se ela não gostar da fragrância?, e seiscentas e sessenta e seis dúvidas atormentadoras que inevitavelmente levam o infeliz a amaldiçoar, furibundo, quem sentenciou que não é de bom tom dar vale-presente.

Mas, para cada problema contemporâneo, a modernidade traz uma compensação, e, no presente caso, ela se chama smartphone (“celular”, para os antigos). Sem os condicionantes e limitações acima citados – exceto pelo preço – o aparelho é a solução mágica para pôr termo ao suplício: útil, multifuncional, de bom gosto, está na moda. Sobretudo: não viola nenhuma lei universal de correção política e tampouco fere os sentimentos dos fiscais de insignificâncias e ofendidos profissionais. É o presente perfeito.

Domingo, a efeméride, com seus usos. No instante ápice, entrega-se o embrulho, iluminam-se os rostos, a surpresa é revelada, abraços, beijos, gratulações e votos. Chega o momento de perscrutar o artefato. Ao longo de vários minutos, todos os recursos – exceto o de fazer chamadas – são fartamente demonstrados pelos zelosos filhos ante os olhos enlevados da mãe, que mal toca o presente. Concluída a exibição, é a vez de a agraciada se aventurar no manuseio do brinquedo, com suas numerosas funções. Muitas dúvidas e dificuldades depois, o cansaço vence a curiosidade, o aparelho fica de lado, é hora de almoçar.

Nos dias que se seguem – e o que vai aqui, você, leitor, e eu conhecemos de incontáveis exemplos – as visitas ao dispositivo vão rareando, em que pesem o estímulo reiterado da família, os muitos apps e seu appeal, e os insistentes avisos que o mimo renegado insiste em emitir: atualizações, mensagens e outras desnecessidades. O reencontro só se dá nas ligações, justamente o único recurso desprezado no treinamento.

Não raro, o presente subutilizado acaba sendo aproveitado mesmo é pelos filhos. A mãe não se importa e até sente certo alívio, livre tanto do remorso do desperdício como da responsabilidade de ter que aprender tantos macetes operacionais. Alheia a toda discussão hodierna sobre emancipação feminina, “empoderamento” e extravagâncias afins, lá no íntimo (tão no íntimo que é como se quisesse esconder de si mesma aquele pensamento ingrato), lamenta (n)aquele museu involuntário que se tornou sua cozinha: o que queria mesmo de Dia das Mães, e a deixaria tão satisfeita, meu Deus!, era uma batedeira mais moderna, um desses multiprocessadores milagrosos ou um reluzente jogo novo de panelas.

 

11 comentários sobre “Panelas para o Dia das Mães

  1. Avatar de Thays FEMEN NOVA ORDEM
    Thays FEMEN NOVA ORDEM disse:

    Que LIXO!!!! Então você defende na cara de pau o que você mesmo falou que dar objeto de cozinha é uma forma de dizer que mulher é ESCRAVA?? Seu I-DIO-TA não dar essas coisas pra mulher é uma conquista social e FEMININA e aí vem um retrogrado reacionario que nem você querendo estimular o atraso é o machismo???!! Quem voce pensa que é, machinho pra incentivar as pesoas a dar instrumentos de tortura e escravidão pras mulheres??? Ja ouviu falar em QUEBRAR OS GRILÕES??!!! Voce vem com sua ironia CRETINA falando do Foucault mas APOSTO que nunca leu por que se lesse não falaria tanta merda!! IDIOTAS que nem voce tão se CA-GAN-DO de medo por que o patriarcado tá caindo e MERDAS como voce vão ter que pagar por anos de escravidão feminina!!! Perdi tempo lendo esse LIXO!!! Vai dar panela pra SUA MÃE!!!! Ela merece por ter colocado voce no mundo!!

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    1. Avatar de Carlos Campos
      Carlos Campos disse:

      Thays New Order, não quero me precipitar, tampouco ser injusto, mas tenho a impressão de que você ficou um pouco brava comigo, estou certo?

      Me baseio no DataCirco Statitcs, segundo o qual você usou:

      – 8 xingamentos;
      – 20 pontos de exclamação;
      – 10 pontos de interrogação (em apenas quatro perguntas);
      – 15 palavras em caixa alta;
      – 2 silabações (estando uma errada, o certo é i-di-o-ta – há um hiato entre ‘i’ e ‘o’, não se trata de um ditongo);
      – 1 ofensa a uma familiar do escritor.

      Isso tudo em um texto com 695 caracteres sem espaço.

      Então, se estiver mesmo com raiva, calma.

      Primeiro, obrigado pela visita ao meu circo. Pode vir quantas vezes desejar. Se quiser, tem até chance de trabalhar aqui. Com seu perfil, tenho vagas para mulher barbada e canhão. Brinks. 🙂

      A despeito de você escrever em uma língua aparentada com o português, tive dificuldade pra entender boa parte do seu comentário. Caso eu faça um juízo errado de suas palavras, lhe afianço que terá sido incompreensão de texto, não má-fé. Adiante.

      Você pergunta: “Então você defende na cara de pau o que você mesmo falou (…)?”. Sim, tenho esse excêntrico hábito de defender o que digo. Estranho, não? Só que o que eu afirmei não foi o que você disse.

      Utensílios de cozinha são “instrumentos de tortura e escravidão”?! 😮 Nossa, tenho um museu do Holocausto no meu armário e não sabia… 😐 Mas, tranqüilize-se: são objetos inofensivos. E úteis.

      De qualquer forma, não incentivei ninguém a dar objetos assim às mamães. Apenas disse que desconsiderá-los a priori é uma tolice.

      Aliás, o texto não é sobre “presentes para as mães”, mas acho que você não conseguiria entender isso.

      Ah, diferente do que você disse, li Foucault. O “Vigiar e Punir” só (uma droga), que também tenho coisa mais útil pra ler. E, sim, tenho certeza de que você não leu.

      Quanto a “quebrar os grilões [sic]”, você quis dizer “grilhões” (Marx) ou “grelões” (Lula)? POR FAVOR, me tire essa dúvida! É vital!

      Por fim, minha pobre mãezinha não pode fazer parte do movimento empoderador?! Que discriminação odiosa, Thays!

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    2. Avatar de Thays FEMEN NOVA ORDEM
      Thays FEMEN NOVA ORDEM disse:

      Nossa você teve pachorra de contar cada sinal de acnetuação no meu comentario!!!!! Que falta do que fazer hein!!!!! Então vou usar muito mais nesse pra você ter mais trabalho ainda pra contar!!!!!!! Não adianta escrever bonito, fazer ironia e piadinhas pra bancar o superior pq o que você escreve não tem substancia é só bobagem machista e misogina!!!!!!!

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  2. Avatar de Thays FEMEN NOVA ORDEM
    Thays FEMEN NOVA ORDEM disse:

    Agora que eu reparei no nome do site de tao indignada que eu fiquei!! CIRCO!!! Só podia mesmo já que o machinho que escreve é um PALHAÇO!!!!

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    1. Avatar de Carlos Campos
      Carlos Campos disse:

      Ai, ai, ai, Thays, até que você não tinha se saído tão mal no seu outro comentário (mentira, foi péssima), mas neste… santo Deus. Você fez a piada mais clichê possível. Eu mesmo já me fiz essa pilhéria. Sugiro trocar seu nome de guerra para Thays FEMEN NOVA ÓBVIA. 🙂

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  3. Avatar de Heloisa Fraga
    Heloisa Fraga disse:

    kkkkkkkk Eu e meus irmãos rimos demais com o texto! Ano passado compramos um Windows phone pra minha mãe e foi tudo exatamente igual seu texto. Dias depois ela já nem mexia nele, até que acabou ficando com meu irmão mais novo. Esse ano demos um mixer que ela tinha falado que queria, ela ficou feliz da vida! Realmente tem coisa que pensamos que nem sabemos de onde vem.

    ps. Que paciência a sua com essa Thais hein?

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  4. Avatar de Mariana Brand
    Mariana Brand disse:

    texto todo baseado em estereótipos e palavras difíceis. constrói o que parece ser uma metáfora mas nos leva apenas à situação proposta, você está brigando pra que vocês, pobres homenzinhos, possam dar batedeiras pras suas mãezinhas? o que eu queria mesmo é que as mãezinhas pudessem parar de fazer o jantarzinho e que a batedeira viesse realmente como um gosto gastronômico da PESSOA e não DO GÊNERO. sinceramente, acho bastante insensível a reflexão, pautada em ideias generalizadas de “mãe”, desconsiderando todas as particularidades possíveis da MULHER que é a nossa mamãezinha. minha vó mexe em smartphone e se ela quiser batedeira, ela compra com o dinheiro dela. só UMA dentre as excessões dos casos que você cita aí.

    e uma dica: acho que presente pode ser alguma coisa mais especial, que tenha a ver com a PESSOA, e não com o gênero. se você compra o presente baseado apenas no gênero, não é só o machismo que está sendo um problema.

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