Professor Márcio

“És meu mestre, o modelo sem segundo;
Unicamente és tu que hás-me ensinado.
O belo estilo que honra-me no mundo”.
(A Divina Comédia – Inferno – Canto I, Dante Alighieri)

O ano era o de mil novecentos e não interessa. Dia um de aula, com pernadas meio desleixadas, o homem desconhecido passou à sala. Cabeça baixa, mas não de abatimento, senão como quem se prevenia, na mesmice do chão, da distração de seus pensamentos.

Dispôs maleta e apetrechos sobre a mesa, com cuidado, mas sem simetria. Sentou-se e, parecendo esperar que o silêncio ali vigente se exacerbasse ao nível do sepulcro, deteve-se alguns segundos a observar-nos com um olhar que, embora fixo, dava a impressão monalísica de alcançar-nos a todos simultaneamente.

Apreensivos, timidamente lhe devolvíamos a mirada, mas aquilo era menos uma troca de olhares que um jogo ocular de… sei lá, um jogo qualquer.

Quando o “bom dia” do homem ressoou, o sobressalto foi unânime, não pela tonitruância da voz saudante, mas em razão da interrupção abrupta do breve estupor hipnótico em que nos encontrávamos sob aquele olhar.

Com semblante impassível e um tom seguro, monocórdico, procedeu à apresentação: “meu nome é Márcio, sou o novo professor de matemática de vocês” e os et ceteras de praxe, tudo na mais perfeita ordem burocrática.

Em seguida, levantou-se, ao que, com o instinto afiado por anos de treinamento escolar, todos, em gesto concomitante, colocamos a mão sobre o livro à espera do comando: “página X, assunto tal” e então a velha cantilena de abstrações matemáticas.

Refreando-nos o instinto ao subverter o rito – ou, mais bem, o costume –, resolveu falar outro tanto. “O primeiro trabalho de vocês será o de ir à biblioteca e…”. Ahn?! – entreolhamo-nos, perplexos –, biblioteca?!, como assim?, mas não é aula de matemática?, professor, desculpe, o senhor entrou na sala errada, nossa aula de História é no quinto horário. Hihihi!

Mas como fosse silencioso nosso pasmo, prosseguiu o homem, com desassombro, seu monólogo, do qual ainda conseguimos captar uma lista de nomes: Pitágoras, Bhaskara, Arquimedes, Pascal, outros. A tarefa, a ser realizada em trios, consistia na preparação de um resumo das respectivas biografias desses defuntos ancestrais com seus nomes engraçados e um legado de amolações eternas em forma de algarismos, símbolos e formas geométricas. Era o que faltava!

(Não é ultrajante quando se atrevem a perturbar, com suas novidades intrusas, nossa rotina aborrecida, como se a esta já não nos houvéssemos confortavelmente habituado e mesmo lhe dedicássemos algum afeto?).

No restante da aula, uma conversa sobre formatura – éramos da oitava série – e outras inutilidades. O livro permaneceu fechado. E não vimos nenhuma fórmula.

Em virtude de um desses recessos escolares, o segundo encontro se daria mais de uma semana depois, intervalo suficiente para a elaboração dos trabalhos.

No regresso, já munidos de nossos precários opúsculos – forjados com o rigor formal esperável de um bando de adolescentes – abancamo-nos à espera da próxima surpresa do professor.

Entrou como antes – e como sempre seria – (olhos baixos, ar reflexivo), livrou as mãos do material e estacou ao lado da mesa. “Fizeram os trabalhos?”. Sim. “Muito bom. O que descobriram?”. O silêncio a seguir não se devia à timidez, mas ao fato de ignorarmos o que havíamos descoberto, pela singela razão de sequer sabermos que descobríramos qualquer coisa.

Tomado por um desses inexplicáveis surtos de esperança, permaneceu fitando-nos com seu olhar multifocal, no aguardo de uma resposta. Mais alguns segundos, e decidiu mudar de estratégia: “Ok, quem foi Pitágoras?”. “O que criou o Teorema de Pitágoras”, ousei. “Certo”. E como sempre acontece após as grandes revelações da história da humanidade, minha resposta foi um divisor de águas, inspirando meus colegas a revelar um vasto conhecimento até então reprimido. Prodígios da síntese, a cada questão sobre “quem foi Fulano”, resumiam a notável biografia e os feitos do egrégio homem mediante uma complexa fórmula: “O do plano cartesiano!”, “O d’Os elementos!”, “O do ‘Eureka’!”…, perguntas e respostas formando uma peça ritmada, de compasso regular.

Terminado o jogral, o professor parou diante de todos em um ponto eqüidistante tanto da porta como da janela. Agora com o olhar alto, em altivez solene, como se buscasse a inspiração dos gênios idos para a laboriosa missão de ilustrar os brutos, começou: “A matemática surgiu…”. Bem, valorosos ledores, começava a dar-se ali a peripéteia e a conseqüente anagnorosis. Multitentacular, segurando-nos a todos as mãos ao mesmo tempo, conduziu-nos nosso Virgílio em uma excursão mental pelas esferas concêntricas da matemática, na Grécia, Egito, Babilônia.

“— Oh! Virgílio, tu és aquela fonte
Donde em rio caudal brota a eloqüência?
Falei, curvando vergonhoso a fronte.

Ó dos poetas lustre, honra, eminência!
Valham-me o longo estudo, o amor profundo
Com que em teu livro procurei ciência!”.

De repente, aqueles nomes de homens, outrora vazios de significado para nós, como um amontoado de sílabas a nomear ninguém, deixavam de ser mero significante e se tornavam quase títulos, insígnias; seus donos se nos figuravam agora como magos ou santos. Algarismos e símbolos, até ali a reles representação gráfica da frieza e do enfado algébricos para os mal-aventurados estudantes, descobrimos, tinham cada um uma razão de ser, um lugar e uma função na existência, assim nas casas, na feira de rua, no cosmos.

A cada palavra do nosso guia, A Equação, A Grande Equação, A Equação Essencial de todos os números, formas e sinais ia se decifrando e se resolvendo em nossas cabeças. Após o símbolo de igual, isto: tudo naquela então indigesta e abstrata ciência tinha uma origem, um uso, uma história. Tudo, enfim e afinal, tinha um SENTIDO.

Nem eu nem a imensa maioria dos meus colegas jamais chegamos a desenvolver habilidades matemáticas acima do medíocre, mas mesmo para nós – ou para boa parte de nós – A Grande Lição já havia sido aprendida.

Ao longo de todo o ano, a cada novo tema, o professor nos apresentava a história do que íamos aprender. Após os exercícios, para terminar o tópico, nos dizia em que áreas aquilo ainda era usado. Com franca diligência, nos empenhávamos nas tarefas, desejosos, sim, de aprender, mas também por admiração aos mestres do passado e gratidão àquele do presente.

Por haver-nos revelado o que seus pares soem sonegar aos alunos, enclausurando-os no cárcere das abstrações inexplicadas; por honrar sua profissão (procurem a etimologia dessa palavra) em um meio tomado por carreiristas ordinários e prosélitos vulgares a serviço de uma agenda, uma ideologia, um partido; em síntese, por exortar-nos a amar o conhecimento – em seu sentido mais puro, filosofia – entre ineptos cheios de si a cultivar e disseminar o erro e a ignorância entre seus estudantes, o estimado Professor Márcio estará, o quanto me o permita a memória, em minha lembrança. Por ser-me até hoje um exemplo – de caráter, conduta e intelecto –, mestre, meu sincero tributo e o mais grato dos ‘obrigados’.

6 comentários sobre “Professor Márcio

    1. Avatar de Carlos Campos
      Carlos Campos disse:

      Obrigado pelas palavras, Neide! A história é real, sim. A última notícia que tive, de há mais de dez anos, é de que ele havia deixado o magistério e aberto uma academia. Era um homem muito sério, e deixava bem claro que o ambiente escolar, por uma série de motivos, lhe fazia muito mal.

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  1. Avatar de Lívia Alves
    Lívia Alves disse:

    Carlitos! 🙂 Finalmente um escrito seu na web! Chorei de rir do jeito que vc informou o ano e no “ousei”. O texto tá um primor, adorei. Vê se não para, haragán.

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    1. Avatar de Carlos Campos
      Carlos Campos disse:

      Cara, o primeiro vídeo está indisponível, mas eu já o havia visto. É nada menos que repulsivo. Ainda vou escrever sobre esse tipo de coisa.

      Quanto ao segundo, há alguma informação mais concreta? Não que eu duvide que isso realmente tenha conhecido – aliás, é bem provável – mas sem a imagem, não temos a prova de que o sujeito estava mesmo em uma sala de aula.

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